terça-feira, 26 de julho de 2011

Será isto, então, o Hades?

Do fundo deste poço, asseveravam, passava-se ao Hades. Águas sulfurosas e fétidas, mas límpidas, como o mais puro cristal. No mais profundo, todavia, onde a luz não alcançava, era breu.
Verdade era que, de todos os que mergulharam antes de mim, nenhum regressara. Não restava pois dúvida, do fundo daquele poço passava-se ao Hades. E, como ninguém conhecia o fundo daquele poço, que o breu da profundidade não tolerava o alcançar com o olhar, tão só se sabia que, em qualquer lugar, havia que encontrar uma dissimulada passagem entre o lajedo.
Mergulhei, pois, e todos me olhavam como se tivessem acompanhado o meu fétero ao sepulcro. Beijaram-me na face e desejaram-me gloriosas façanhas.
Chegado ao fundo, a procura foi serena e meticulosa, mas não havia brecha por onde me furtar àquela clausura. Então, prostrado e extenuado já, sem forças para emergir, deixei que a água me entrasse pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. E foi como se regressara ao ventre de minha mãe e mergulhasse de novo nas águas amnióticas.
Agora, de súbito, reencontro-me de novo entre vós.
Será isto, então, o Hades?

18 comentários:

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  2. Claro, ''minha vida por um fio''.
    Não foi contigo que sonhei este sonho?


    Sonho primeiro

    Estando acordado, em estado de lancinante lucidez, desci aos infernos em busca do cadáver calcinado de Lázaro e, impenitente, o icei a braços à boca do mausoléu.



    No êxtase da descrença, ou da crença, não sei bem, Lisístrato, mestre remoto de Galeno, dissecou minuciosamente sentenciados vivos. Na ponta acerada do escalpelo, prolongara o poder taumatúrgico das suas mãos divinas, que penetravam agora os lugares mais recônditos do mistério.
    «(...) e assim, um indivíduo interessado no estudo da Anatomia, versado na dissecação dos mortos e não infectado pela heresia, sensatamente compreende quanto me arriscaria se propusesse alguma coisa sobre a vivissecação do cérebro, o que noutros lugares faria longamente e da melhor vontade.». Confessou atónito Vesálio.
    No auge da crença, ou da descrença, nem importa, Jesus violou temerariamente o mausoléu de Lázaro, peregrinou pelas escuridões profundas e arrancou o cadáver ao sarcófago.
    Se o inferno não existe em parte alguma, existe em mim que o nomeio.

    Estava eu, então, vigilante e desperto, quando Jesus me apareceu e me tentou. E não aparecia investido na imagem de qualquer coisa ou de qualquer um que fosse, mas na Sua própria, com o Seu próprio rosto, a Sua própria voz, o Seu odor.

    - O que Eu fiz, fá-lo. Devolve à vida o corpo exangue de Lázaro. Vai, desce às profundezas da Terra, tacteia a aspereza húmida das rochas e perde-te nos desertos sufocantes de cinzas calcinadas. E não voltes sem ter violado o sarcófago e em promiscuidade com o cadáver iça-te de novo à claridade límpida das montanhas da Judeia.

    - E porque o farei, Senhor?

    - Porque Eu te darei o Meu Reino.

    - Amen - disse eu, sem saber se era bom, se mau.

    Reflecti longamente e não enxerguei razão para declinar. Aspirei o ar gélido de uma manhã clara de Inverno, auscultei as minhas crenças e as minhas descrenças e, da beira da escarpa, despenhei-me abruptamente no precepício sem fim. Ao longe e esfumado por um ar refractário, um cortejo de anjos vinha em meu auxílio. Mas para que as profecias se pudessem cumprir e propiciar um bom augúrio à minha empresa, inflecti para os evitar. O tombo vertiginoso suspendeu-se brevemente, no momento do embate surdo no leito de um rio profundo.
    O meu corpo sólido jazeu como um fardo sobre as pedras, sepultado num sarcófago líquido e hermético, mas uma espécie de lastro subtil prosseguiu na carreira e penetrou por osmose as prosidades do solo, tingindo-o. Era nele que residia o calor e palpitava a vida.

    - Vem - disse-me uma toupeira esguia.

    Mas o solo encharcado, vizinho das águas, era ainda quase impenetrável, uma espécie de lodaçal viscoso como o barro. Se atentara bem no aspecto verosímil da toupeira, soubera que aquela substância inqualificável que se consubstanciara com o próprio solo era eu, que residia agora nos poros de uma terra ainda densa, mas cada vez mais rarefeita.
    Expirava já sufocado, reparando que não dispunha de qualquer meio credível de locomoção e me movia a custo, de poro em poro, sem sequer remover os detritos que a toupeira me lançava sobre o dorso, quando, de súbito, o lodo deu lugar a um deserto imenso de cinzas pardas, interminável. Preenchiam todo o horizonte alcançável.

    - Este é o Seu Reino. Aqui não entro. Não esperes que a tempestade se levante e o vento te sepulte num sarcófago irremovível.

    E penetrou de novo nos lodos, laboriosa e imunda.
    Sem outro guia que me desvendasse o horizonte uniforme, que as cinzas envolviam numa treva velada, gritava já em desespero.

    - Lázaro! Lázaro, levanta-te!

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  3. Apenas um bando tenebroso de corvos, camuflados na mole cinzenta das dunas, se levantou e esvoaçou em exaltação. Uma brisa breve varreu o ar entediado e um pó finíssimo empastelou-me a boca. Não conseguia já gritar.
    Durante uma eternidade, então, que durou o tempo de todas as gerações, deambulei por um deserto de penumbra e informe, na mais indigente solidão. Nem um só ser emergiu da escuridão. Recomecei a gritar.

    - Lázaro! Lázaro, levanta-te!

    Num breve momento, contemplei-me e cada milímetro da pele do meu cadáver pálido e rígido se arrepiou. E Lázaro respondeu-me.

    - Estou aqui. Insuflaste nos meus despojos a tua presença subtil e não sei já onde começo e tu acabas. Consusbstanciaste-te nas minhas carnes pútridas e flácidas e habitas todo o espaço exíguo e infinito do meu sarcófago de cinzas.

    Num combate titânico, tentei libertar-me do invólucro cadavérico que me imobilizara já com o seu peso inerte. Um sopro buliçoso insinuou-se e num instante fui sepultado em toneladas de cinzes secas, hidrófagas, que pareciam sugar toda a humidade da minha substância. E Lázaro disse-me:

    - Ressuscitei-te para a vida eterna.

    E como não retenho a memória rigorosa dos meus sonhos, apenas te posso dar fé de que, quando acordei, emergia sufocado das águas de um rio cristalino que uma lua serena e metálica polivilhara de cintilações.
    De braços abertos para o firmamento, o rosto crispado e congestionado pela dor e pela fé, Ele gritava e a Sua voz, que atravessava os vales por entre as montanhas, ecoava em promiscuidade com o uivar dos lobos e dos cães.

    - Lázaro! Lázaro, levanta-te!

    E era a mim que Ele chamava.

    - E agora, Senhor?

    - Agora, Lázaro, és igual a Mim. É-te indiferente crer, ou descrer, porque ao próprio Universo e a Mim é-Nos indiferente que creias ou que descreias.

    Pois, pensei eu. Se o inferno existe em qualquer parte, é em mim que o nomeio.

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  5. Os nossos apócrifos. Desde que noscruzámoscom a vida por um fio, numa passadeira em Paris.

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  7. Todos os traços da tua caligrafia permanecem arrecadados na minha memória.

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    1. Diz-me, vida minha ressurrecta por um fio. Na passadeira, um em cada extremo, duas crianças precipitam-se desalmadamente naselva dos motores dsabridos. A vida está por um fio. Cada passo em frente é uma ressurreição. Passaste a tua vida a ressuscitar comigo. Porque voltas agora, quando Paris jaz moribundo?

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  9. Que se cunpram. Beberei o meu cálice. Tuso estava previsto nas escrituras.

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  12. Lilith? A voz que procede do abismo, da parte de trás do rosto de todos os erectos que povoaram a terra? A voz da obscura verdade? A voz que regressa com Lázaro das profundezas do seu cativeiro? Como pudera esquecer Lilith, se é a voz de Lilith que falaem mim?

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  14. Blasfémia! A blasfémia, aqui, era o domínio da punição de Lázaro.

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